Perguntas de Natal


Dizem que o significado mais profundo do Natal é o renascimento.
Assim, essa é uma data essencialmente plutoniana, porque fala da transformação e regeneração de nossos afetos.
Dizemos também, na superfície, que é uma data comercial, provavelmente não a verdadeira data do nascimento do menino Jesus e outros argumentos que circulam no astral.
O fato é que essa é uma data comemorada em família, o que alegra a muitos e entristece a tantos outros. Seja porque se está distante da família, porque se é solitário, pelo confronto com um parente difícil, reencontros com carências do passado... ou tão somente pelo cansaço que dá arrumar a casa cedo, preparar a ceia, sorrir para tantos e até franzir o cenho para alguém.
O Natal é uma data em que às vezes preferimos não pensar, por medo! Medo de sofrer. Medo de amar. Afinal, como se ama de verdade, fora dos clichês de amor e perdão que se vendem nesse dia, qual anúncio de margarina?
Qual é o preço que se paga por amar ou, mais especificamente, por não amar como Jesus nos amou?
Enfim, como extrair de dentro da gente esse potencial adormecido de aprender a amar incondicionalmente, exercitar a tolerância e acolher no coração a diversidade?
Como perdoar de verdade as ofensas, e mais especificamente, como jamais sentir-se ofendido?
Como perdoar a nós mesmos, por sermos imperfeitos no amor que expressamos aos outros e seguir recebendo o “ amor da vida”, que às vezes nem enxergamos ou não nos julgamos merecedores?
É possível viver em estado de Amor, como Ele viveu?
O Natal nos remete para fora do cotidiano e nos induz a fazer um balanço sobre a vida e de como a estamos vivendo. Nos atira de supetão ao momento presente e, é inevitável que perguntemos: Quem sou eu nessa família? Família é a de origem ou aquela com a qual sentimos maior afinidade espiritual?
E qual é a medida da tolerância nesse afinar-se ou desafinar-se com o “modelo” de se comemorar o Natal, como o aprendemos em nossa família?
É real o desconforto de se ver de repente, comendo demais, bebendo demais, mesmo sabendo dos que não tem o mínimo necessário para comer e beber?
Será então que essa data signifique distribuir presentes aos menos favorecidos?
Acredito que essas perguntas que fazemos intimamente no Natal, sejam um bom material de reflexão, ainda que seja mais salutar atentar para que elas não nos privem de estarmos presentes no Natal que acontece em cada Agora. Entende?
Aconteceu comigo. E por isso compartilho com vocês. Porque o Natal é compartilhar. E, sim, compartilhar com a família. Com os nossos vivos e os nossos mortos, que vivem em nossos corações, em nossos traços, em nossos rastros sobre a Terra. E com a humanidade inteira, dentro de nós.
Como diz Eliane Brum, “somos avassaladoramente semelhantes”, apesar das diferenças.
Amamos os nossos bem amados do fundo do coração e ainda que possamos nos esquecer disso, os levamos em nossa história, em nossas marcas e rugas, cicatrizes e lágrimas. E certamente, no nosso melhor sorriso.
A última pergunta que faço, sei... vamos seguir exercitando respostas até o último suspiro que liga a vida de cada um à vida de todos e à Vida maior: Eu amo a mim e aos outros, silenciosamente, e com toda a força da vida que me trouxe até aqui?
Em cada olhar generoso de nossa própria alma na alma do outro, podemos ver o melhor de cada um.
Porque só o espírito reconhece o espírito e reflete o sagrado. E isso é Natal.

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